Faz anos que a Priscila gosta do que eu escrevo, mas ser gostada por quem eu nem conheço é assustador. Não sei quais adjetivos usar para expressar o que sinto todas as vezes que um estranho deixa-me um registro. Se houver uma qualidade para denominar, não deve ser em língua portuguesa, porque sentimento em lingua portuguesa eu conheço todos, eu vivi todos. E esse, ah, esse não nome, não!
Dá vergonha. Já pensei em tirar a minha foto; dá medo, porque quase nunca uso a língua padrão; dá preguiça, pois acho que preciso sempre refazer tudo; dá angústia, pois não sei o que irão pensar; dá indiferença, porque hoje eu não me importo com o que pensem e isso me dá medo e volta tudo de novo.
Estou escrevendo um livro. Não sei se terei forças para publicar. Aqui, eu controlo os comentários, posso ler e reler - como fiz com o comentário de uma moça no texto 'receita' - e ficar saboreado tal qual um bombom. E o livro? Um livro... na casa dos outros, na cama, no ônibus, na bolsa, na estante...Terei vergonha, medo, preguiça, angústia e tudo de novo.
Pior do que a norma culta, é a falta de norma para sentir. Não tenho critérios, nada do que eu sinto tem norma. Eu leio o que me escrevem e isso me apavora. Aí, não quero mais escrever. Nunca mais! E só porque eu não desejo mais postar, eu escrevo, como agora. Estou escrevendo porque não sei o que fazer com esse sentimento.
Bastava dizer: "Obrigada", para a moça e "valeu" para a Priscila. No entanto, eu não consigo: tenho vergonha. Acho que não se agradece ao que não se tem, e uma vez público, o texto não é mais meu.
Minha avó não gostaria de saber que eu não agradeci, então em memória à boa educação dada pela vovó, lá vai:
MUITO OBRIGADA

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